por EDSON SOARES MARTINS
Entende-se que, na construção de um estudo de fôlego sobre os cantos dançados no Cariri cearense, não seria suficiente a pura e simples listagem, justaposição ou apresentação de linhas gerais de classificação ou de uma cartografia, ainda que minuciosa, dispondo os agrupamentos sobre o mapa da região. Na multiplicidade de enfoques teóricos, de corpora e de outras circunstâncias que lhe são determinantes, nesse tipo de estudo ressalta o aspecto de que no campo científico dos estudos de linguagem a consideração de tais formas repõe, em termos discursivos, os núcleos mais ativos de construção social do campo artístico e da tradição, bem como da própria representação dos sujeitos.
Entre os núcleos de atividade poética, no levantamento inicial que produzimos, registramos que são perceptíveis dois grandes desafios, que constituem norteamentos inevitáveis desta pesquisa. São dois polos, que aglutinam, cada um, uma multiplicidade de eixos teóricos e (portanto) discursivos: o polo teórico-discursivo da salvaguarda, marcado pelo pressuposto metodológico de que o registro e seu estudo garantem a “salvação” das artes, dos saberes e da memória de seus criadores, e o polo teórico-discursivo da transposição de campo, que situam o registro e seu estudo como problemas dos subcampos teóricos e metodológicos em que se instala o pesquisador (a sociologia, a antropologia, a história, a economia, o turismo, a teologia, as ciências da informação, os estudos literários etc).
Nossa proposta, ao tomar como objeto as poéticas orais sob o aspecto dos cantos dançados, como o coco, o reisado e o reinado de congo, dispoe-se a evitar o efeito descaracterizador que aqueles polos a que acabamos de nos referir produzem e difundem, indiferentes às transformações ocorridas nas últimas décadas no campo dos estudos culturais. Disto decorre a necessidade de uma exposição que seja orientada por uma perspectiva crítica, capaz de, por um lado, aprofundar interpretativamente as orientações teóricas, os pressupostos metodológicos, o referencial bibliográfico manejado e, por outro, caracterizar o entorno discursivo dos polos da salvaguarda e da transposição, além de identificar os subconjuntos que entre eles se situam.
No tocante às artes e aos artistas, nossa proposta de estudo não contempla apenas a oposição entre discurso acadêmico e não- acadêmico. Entendemos, na esteira de considerações propostas por Achugar (2006), que o problema do local (discurso local, memória local, história local etc) introduz o aspecto do posicionamento dos sujeitos. Isto põe em pauta o questionamento, de grande valor teórico-metodológico, de que a tradição local não é sempre ou necessariamente a mesma para pesquisadores e artistas. A posição de mulheres agricultoras do Crato e de homens dos bairros periféricos de Juazeiro do Norte não apenas são transcriadas pela ação discursiva de pesquisadores, mas pelo “Outro do Outro”, como a posição de mulheres artistas não-agricultoras e homens artistas não-periféricos. Tal dinâmica deve ser assumida como pressuposto metodológico inegociável na investigação de suas biografias e de suas artes, sob o risco que se reproduzir um conjunto homogeneizado, como costumam ser os casos dos estudos de largo espectro.
A primeira constatação que nos salta aos olhos, ao compararmos as considerações que acabamos de tecer com os estudos e anotações feitos por Mário de Andrade sobre suas coletas e observações de campo, é a complexificação do cantos dançados, como o coco, enquanto atividade artística. Mário, autor do “primeiro registro sobre os cocos feito com o rigor do método científico” (AYALA, 2000, p. 24) fez muitos e diversificados registros dos cocos a que assistiu na Paraíba, em Pernambuco e no Rio Grande do Norte em sua excursão entre 1928 e 1929. Ele testemunhou, como se comprova pela leitura de Os cocos e As melodias do boi, tanto o agrupamento circunstancial festivo, a cena viva do coco em sua eventicidade coletiva, quanto as audições propiciadas por seus anfitriões. Da cena ampla, em sua dimensão coreográfica, Mario recorta muito pouco: está sempre movido pela força de atração do pensamento dedicado à melodia e à letra. Dos encontros e audiências mais privados, ele nos entrega bem mais: a construção biográfica dos cantadores que o encantaram, os processos composicionais da literatura dos cocos, a descrição cuidadosa do desempenho vocal dos indivíduos, de sua desenvoltura ou timidez, de sua psicologia e de seus humores…
O cenário dos anos 1920-1929 era, contudo, diferente do atual, mesmo naquilo que se afigura como núcleo da tradição: a sua origem. Mário especula que o coco teria “ascendência aproximada das rodas coreográficas portuguesas pra adultos” (ANDRADE, 2002, p. 347). Sua impressão se baseia na dispersão de temas e de versos portugueses em nossa música popular, sobretudo no Nordeste. A tendência atual, entre estudiosos mais jovens, enxerga o coco como parente dos cantos responsoriais africanos, destacando a dança da roda, a girar sempre em sentido anti-horário, como na Umbanda e no Candomblé (ARAUJO, 2013). Que não sejamos julgados por convidar a uma leitura que parece elementar, mas o mais provável é que o coco tenha assimilado, a seu modo, as duas influências, sendo amálgama de imperativos estéticos portugueses, mas também bantos e iorubanos.
É curioso notar o apagamento da influência negra na poética oral estudada por Mário. No ensaio chamado “A literatura dos cocos” (que teve, provisoriamente, o subtítulo, posteriormente rejeitado, de “A técnica nos cocos do Nordeste”), o pesquisador capta as influências ameríndias no populário poético nordestino. Escapam-lhe, nas muitas considerações que faz dos processos linguísticos, as influências dos falares africanos no português rural do Brasil, que nos deu, inclusive, a palavra ganzá (do quimbundo nganza, chocalho), a mesma que Mário de Andrade pretendeu utilizar no título de seu estudo mais geral sobre a música popular nordestina (o jamais concluído “Na pancada do ganzá). O léxico africano, mais frequente, não é apontado em seus estudos, enquanto, por exemplo, nota em “curica” (do tupi ku’ruca, papagaio) a origem ligada ao tronco tupi.
Essas observações, naturalmente, não pretendem apontar insuficiências no estudo feito por Mário de Andrade. Seu trabalho ainda é o mais consistente esforço de entendimento da poética oral dos cocos e o interesse que sua leitura desperta é evidência dos grandes e preciosos acertos que sua observação apurada foi capaz de extrair do volume gigantesco de documentação por ele produzida e organizada.
Partimos de um campo de estudos em que a atividade de reflexão se apoia em conceitos como gênero, responsividade, ato ético, dialogismo, entre outros. Tal abordagem bakhtiniana nos obriga considerar um conjunto de elementos bem mais amplo que aquele atingido pela transcrição convencional. O papel dos sujeitos que se alternam no ato dialógico, que é o coco, mantém relação com o espaço em que a ação transcorre e é afetado por expectativas de desempenho já conhecidas pelo grupo, pela comunidade e aquelas próprias do gênero. O próprio gênero, sendo portador de uma poética, é histórico e, portanto, requer o confronto frequente das formas atuais com as formas anteriores.
Um enunciado de outrem, para voltarmos ao fio do raciocínio, é dotado de conclusibilidade, como lhe é inerente (remeto a estudo de Bakhtin sobre os gêneros do discurso), e sempre nos diz quando podemos passar a ocupar nossa posição no jogo de alternância de turnos de fala. Ocorre que a pesquisa exige planejamento prévio e, frequentemente, pomos nosso planejamento no lugar de nossos interlocutores. Essa construção da pesquisa, como gesto de reconhecimento, não pode ser feita na ausência dos interlocutores com quem trabalhamos. Toda pesquisa é dialógica, na medida em que todo uso da linguagem é dialógico.
Não há como fugir da dialogicidade do pensamento e da palavra, principalmente nas ciências humanas. Quando nosso interlocutor é um texto, sua condição de enunciado prévio não é imune a uma eventual negligência desse postulado, que produz textos monológicos, mas isso é menos frequente, na medida em que reconhecemos, no interlocutor, as credenciais de intelectual que nos irmanam na mesma tradição, na mesma comunidade de intérpretes. Quando nosso interlocutor é uma pessoa, empenhada em uma ação humana, reconhecê-lo implica não apagá-lo como voz ativa em nossa escrita. Estudar uma festa ou estudar a ação humana de festejar a vida e a história por meio de cantos dançados são atitudes radicalmente distintas em termos dos efeitos de conclusão que se podem produzir. Estudar um evento, um acontecimento ou um lugar nos levam a uma ordem de conclusões. Estudar pessoas que tornam possível um evento, que performam ou testemunham acontecimentos ou que fazem de um lugar um problema humano nos levam a outra ordem bem diferente de conclusões.
Todo conhecimento que produzimos está, enfim e portanto, circunscrito por um mesmo mocó: a pessoa humana. No caso da pessoa que se confunde com as ou que está situada dentro das fronteiras do que chamamos “povo”, é cada vez mais comum sermos instados a perceber que essa pessoa regula seus modos de produção e compartilhamento de saberes de acordo com ordenamentos que não passaram pelos mesmos caminhos de homogeneização do campo científico. Mesmo que o conhecimento seja o mesmo (e as pesquisas do tipo que elegemos como tema desabrocham sempre nessa tradução entre sistemas semióticos distintos), seu modo de estar em contato com os cuidados de produzir a própria existência é diferente, criativamente diferente, poeticamente diferente.
Decorrência disto, é que o artista intelectual que atua fora do mundo da ciência oferece-nos obras que se destacam do mundo da vida por meio de procedimentos composicionais distintos daqueles com que a academia se familiarizou. Algo semelhante ocorre com o manuseio de fontes orais que não têm características artísticas? Há poéticas da oralidade, sempre às voltas com o normativismo das poéticas da escrituralidade. Necessitamos aqui dos mesmos ouvidos que vimos ser necessários na atividade artística. Sem eles, a oralidade constitutiva da fonte sofre a ação redutora de nossos procedimentos acadêmicos e regridem à condição de transcrição e nos dão a falsa impressão de continuarem a ser fontes orais, quando, na verdade, lidamos, obsessivamente, com sua escrituralização.
Acreditamos, a essa altura, que já fixamos adequadamente o desafio de lidar com as diferenças na escrita e na escuta. Essas diferenças, principalmente no que elas revelam sobre os planos axiológicos distintos ou mesmo antagônicos, impõem o delineamento de um terceiro plano axiológico, o da pesquisa. É nele que estaremos diante da tarefa de deixar maximamente explícito e consciente nosso olhar-ouvido que extrai, propõe, compara, contrasta valores. É fundamental que este plano que aprecia pessoas esteja em conformidade com o real da existência concreta, única e irrepetível dos fatos, fenômenos, depoimentos em que elas estão implicadas.
A poesia, o canto e a dança são flores nas mãos na Beleza. Quando elas se entrelaçam de forma tão consistente e necessária, como nos cantos dançados, seu brilho pode ocultar algo que não é rama, mas, isso sim, seiva: a origem e destino comunitários dessas formas poéticas orais, fundadas “em vida comunitária com fortes laços de solidariedade que se constrói no dia-a-dia difícil, no mutirão coletivo da vida” (AYALA, 2000, p. 38) se estabelece como maior e mais importante referência para quem com elas se proponha a dialogar. Seu fundamento comunitário, que poderia ficar mal acomodado na proximidade com o fundamento confinante das práticas centradas na escrita, ensina a acolher a experiência do Outro e faz, ao mesmo tempo, subirem do chão e vibrarem no ar, sob o impacto compassado dos pés que invocam a vida, a musicalidade da poesia ouvida e lida por ancestrais que se reúnem em seu berço. Antecipando a sensibilidade moderna, tão empenhada na valorização da diversidade e da diferença, a poesia dos cantos dançados é pioneira na mescla original de tradições da escrita e da voz. É esta beleza que enfeixa, enlaça e nutre as suas outras formosuras e é por este motivo que é tão urgente conhecermos e apreciarmos a poesia cantada e dançada do Nordeste.
Este projeto recebeu apoio financeiro da FUNCAP.

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